ENTREVISTA 06 - SWEETIE BIRD
“O QUE EU
FAÇO NA FRENTE DAS CÂMERAS É O QUE EU FAÇO SEM CÂMERAS POR PERTO”
De onde você é? E qual sua primeira
lembrança de ter visto uma cena de sexo em sua vida?
Sou do sul do Brasil, nasci em
Curitiba, mas minha família mudou com frequência até os meus sete
anos, quando criaram raízes em Joinville e comecei a ir pra escola. Eu já havia
sido alfabetizada em inglês e português pelo meu pai (que é americano), então,
mesmo não falando português muito bem na primeira série, pular a pré-escola não
fez muita diferença.
Devo ter aberto a porta do quarto quando meus
pais estavam transando, mas não [tenho] uma memória de nenhum momento destes.
Uma memória marcante que eu tenho é de lá pelos meus 4 anos de idade, quando
achei uma revista Playboy debaixo da cama de alguém. A gente morava em casas
comunitárias (éramos missionários) e eu tinha o hábito de me enfiar dentro de
armários e debaixo de camas (pra ter um pouco de sossego e tempo sozinha). Eram
os anos 80 e eu costumava folhear as revistas Nova Cosmopolitan e Claudia que
eu achava e sempre pensava “nossa, como essas roupas são feias e cafonas”.
Então quando encontrei uma Playboy, com as mulheres peladas e com cara de
felizes, achei aquilo lindo. De morrer. Foi naquele momento que eu quis crescer
pra ser “uma das mulheres peladas da revista”.
“ACHO QUE
FOI NO MEIO DAQUELAS REVISTINHAS QUE ENCONTREI O HENTAI”
Claro que a revista Nova e a Playboy não eram
leituras permitidas. Mas o “não pode” sempre teve um poder muito grande sobre
mim então eu fazia tudo o que podia pra experimentar o proibido. Tipo, me
esgueirava pelos cantos e me escondia atrás do sofá pra assistir o jornal
nacional, depois de terem colocado a gente pra dormir, porque as crianças só
podiam ver os desenhos e filmes da Bíblia. Nosso material ilustrado
“educativo”, da missão, também normalizou a nudez e a liberdade aos meus olhos.
Era uma comunidade missionária hippie, que se opunha aos valores do “sistema”,
e os livros de quadrinhos que a gente tinha pra ler eram sobre o “amor” de Deus
e de Jesus, e de como todos andaríamos nus no paraíso.
Cena de sexo mesmo deve ter sido com o Cine Privê,
com o clássico Emmanuelle e suas variantes. Aqueles filmes de softcore sempre
me perturbaram, eu não sabia como, mas sabia que aquele encaixe tava errado,
que os genitais não funcionam daquele jeito. Ah, e as revistinhas de
pornochanchada que a gente comprava super escondido já mais perto “daquela”
idade. Acho que foi no meio daquelas revistinhas que encontrei o hentai. Mas
talvez esteja enganada. Talvez meu primeiro contato com o hentai tenha sido no
/h/.
Com quantos anos perdeu a virgindade
e como foi?
Com 16. Eu já tinha
uma certa reputação de “perdida” desde os 13, quando um grupo de colegas da
escola me coagiu a praticar felação e espalhou que eu havia me oferecido a eles
pra escola toda. Mudar de escola no ensino secundário foi um dos melhores
momentos da minha vida até então, meu ensino médio (o bom e velho ginásio) foi
tortura, pura e simples. Mas enfim… Com 16 eu tinha um grupo de amigas próximas
e um grupo de amigos por proximidade, dos amigos do irmão da minha melhor
amiga. E já trabalhava, dando aulas aqui e ali pra me manter ocupada, além das
atividades esportivas extracurriculares. Naquela época dos celulares
pré-históricos em que a gente só entrava na internet depois da meia noite e
decorava o número do icq pra passar pros paqueras, a
maneira mais fácil de encontrar a turma era a de ter um ponto de encontro
fixo. E a gente tinha alguns.
“EU DEIXEI
ELE COLOCAR A CAMISINHA, TIREI MEU SHORTS E SENTEI NO COLO DELE”
Numa tarde preguiçosa da semana em que eu tinha
algumas horas pra matar antes de dar aula, fui procurar meus amigos no shopping,
mas a única alma que eu conhecia por lá era um cara um pouco mais velho, da
turma do irmão da minha bestie. Ele perguntou se eu queria ir fumar um beck ali
perto e, como não tinha nada melhor pra fazer, aceitei. Nos fundos de uma casa
abandonada fumamos e começamos a nos pegar. Como eu já tinha uma certa
“reputação”, morria de vergonha do fato de ser virgem. Eu tenho uma timidez bem
estranha, eu não sinto vergonha nenhuma de algumas coisas, mas algo assim,
admitir minha virgindade, falar isso em voz alta parecia impossível. Então
quando as coisas esquentaram, eu deixei ele colocar a camisinha, tirei meu
shorts e sentei no colo dele (não, não lembro o nome dele e é provável que eu
nunca soube). Senti uma pressão dolorida,
ouvi um “POP!” bem alto dentro de mim e depois foi mais fácil. Quando levantei,
havia um pouco de sangue e, ainda morrendo de vergonha, falei que achava que
minha menstruação tinha vindo cedo.
Tinha matado as horas que tinha pra matar, então
coloquei o shorts e fui dar aula. Não, não gozei. Só fui gozar com outra pessoa
lá pelos 19 e em uma relação sexual hétero aos 23 ou 24. Pênis é um negócio
estranho e demorei pra pegar gosto.
Sweetie Bird! Conte um pouco do seu
nome artístico. Para mim, ele representa doçura e liberdade. Têm algo
haver?
Tem a ver com um clube de animê que
eu frequentava e um blog antigo. Em um dos meus primeiros blogs, um livejournal todo
cheio de brilhos e gifs cor-de- rosa, adotei a alcunha de Miss Sweetie. Também
nesta época frequentava um clube de anime, e uma das poucas outras meninas do
grupo era conhecida pelo nome de Kotori (ou pássaro, em Japônes). Sempre achei
fofo embora me identificasse mais com a Kuno Kodachi naquela época. Anos
depois, quando entrei no relacionamento 24/7 TPE que me levou a São Paulo, meu
parceiro achou inadequado que eu usasse o “Miss”. Adotei o Bird por causa da
memória da inveja do nome alheio e por viver como um pardal, saltitando de lugar
em lugar (e uma certa rebeldia com o universo do BDSM, o pardal não é o tipo de
pássaro que se dá bem em uma gaiola).
Quando comecei no burlesco, pouco tempo depois de ter me mudado pra São
Paulo, já tinha o nome e não pensei muito a respeito.
Talvez se soubesse na época que o nome do
Piu-Piu (aquele do Frajola) em inglês é Tweetie Bird, uma maneira fofa de falar
Sweetie Bird, teria adotado outro nome. Odeio aquele pássaro sádico e filho da
puta. Mas só descobri quando comecei a me apresentar nos Estados Unidos, e
agora, com 11 anos de palco, me sinto mais Sweetie Bird do que o nome que tem
no meu passaporte.
Gosto muito da suavidade que conduz
sua performance burlesca nos palcos. Você tem um diferencial nos seus
movimentos. Eles são fortes e ágeis, mas na conclusão final têm uma delicadeza
tão encantadora que é difícil não querer passar horas lhe vendo dançar em seus
lindos figurinos. Como começou a dança pra você, como o burlesco entrou na sua
vida?
Se me contasse, aos 10 anos de idade, que eu iria
crescer e me tornar uma dançarina e amar rosa, brilho e usar sapatos de salto
pra dançar eu teria rido histericamente. Escolhi o judô ao invés do balé como
atividade extracurricular quando adolescente porque, depois de um breve
encontro com o jazz (e uma professora com - hoje eu sei - péssima técnica), não
queria estar cercada de patricinhas. Judô, um breve encontro com o
fisiculturismo (e ovos crus no café da manhã) e futebol de salão (me colocaram
no gol quando meus peitos cresceram e ainda jogava em times mistos, acabei
ficando por lá) foram as atividades que escolhi como adolescente. E sim, se eu
soubesse que o balé exige tanta força e habilidade quanto o kung-fu, talvez eu
tivesse escolhido o balé. De vez em quando bate uma inveja de quem fez dança ou
teatro desde criança, minha mãe não queria que eu fizesse aula de teatro, algo
sobre ser coisa de “gente perdida”. Eu comecei tarde.
“MEU
QUADRIL, JÁ SOLTO, GOSTOU DO QUE EU ESTAVA FAZENDO”
Com 24 anos mudei de Roraima pra São Paulo e
comecei a fazer aulas de dança do ventre. Acho que a dança do ventre foi
sugestão do meu parceiro na época, o universo do BDSM tem uma olhar que
fetichiza uma dança praticada descalça e por mulheres de culturas em que elas
não têm voz. Foi meu primeiro contato de verdade com a dança e me apaixonei,
especialmente pelas danças tribais (não A dança tribal, mas as danças das
tribos do Egito como o Saide). Já cheguei a dançar dança do ventre com música
klezmer porque os ritmos são parecidos (e estava em um momento de
questionamento da minha herança familiar judaica). Eu havia aprendido a dançar
merengue nas boates de Boa Vista e meu quadril, já solto, gostou do que eu
estava fazendo.
Alguns meses depois fomos em um evento de
fetiche. Meu “figurino” era inspirado na Bettie Page vestida de French Maid,
com direito a um salto altíssimo e o vestido de empregada. O produtor do evento
me abordou e disse que ia começar a produzir um sarau erótico e perguntou se
estava interessada em dançar burlesco. Fui pra casa, pesquisei e descobri que
era algo parecido com o que eu havia visto nos milhares de musicais antigos que
cresci assistindo, com o acréscimo do striptease como um elemento da história
contada na performance. Sempre fui apaixonada por musicais (e meu parceiro
tinha uma queda por me exibir - como propriedade), então 3 meses depois de
mergulhar na pesquisa, me apresentei como burlesca pela primeira vez.
Aprendi bastante naqueles primeiros meses, com o
restante do elenco e sozinha. O produtor me mostrou onde comprar material pros
figurinos. Aprendi sobre commedia dell’arte e “stillness” no palco, uma pausa
dramática que requer mais energia do que dançar freneticamente. Aprendi que a
minha paixão por contar histórias ainda era tão forte quanto era quando eu era
criança e brincava de teatrinho. E aprendi que eu queria, não, precisava ter
mais técnica de dança se eu ia utilizar a dança como meio de comunicação. Ah
sim, descobri que eu sou (e sempre fui) desastrada e que a figura da “Ingenue”
(a tradução pro português - ingênua - não é a mais satisfatória. A Ingenue é a
figura feminina inocente - mesmo quando sexualizada - e pouco sofisticada, que
desastradamente conquista o herói) era perfeita para a persona que eu estava
construindo. E esse tipo de personagem funciona bem com a minha tendência a
cair de palcos e escorregar em figurinos.
“FOI
FAZENDO KUNG FU ALGUNS ANOS ATRÁS QUE PERCEBI QUE O BALÉ É UMA ARTE MARCIAL”
Enfim, seis meses depois de começar a “fazer”
burlesco, estava fazendo aulas de balé clássico, jazz cabaret, sapateado e
dança do ventre. Fiz um tanto de aulas de canto para musical e minhas seletivas
na faculdade (de jornalismo, eu realmente amo contar histórias) foram todas de
teatro e jogos do corpo. Teria feito aulas de burlesco, se houvesse onde e como
na época (demorou pra entender que havia menos de um punhado de gente fazendo o
que eu fazia por aqui, que eu estava ajudando a formar e educar o público e que
meu trabalho era importante). Comprei todos os livros que encontrei (não foram
muitos). Li todos os blogs que achava (todos em inglês). E aos poucos, mesmo
durante os períodos em que não sobrava dinheiro ou tempo pra fazer aula de
dança, fui me encontrando no meu estilo, me desafiando na minha zona de conforto
e incorporando outros elementos. Foi fazendo kung fu alguns anos atrás que
percebi que o balé é uma arte marcial. Também estudei um tanto de danças
urbanas, amo exatamente esse contraste de suavidade e força que o waacking tem.
São Paulo tem excelentes aulas de dança, algumas delas gratuitas como a escola
do municipal, com cursos difíceis de encontrar como o de “danças de roda
brasileiras” que fiz por um semestre.
E sim, fazer aulas no exterior, quando comecei a
ter a oportunidade de viajar pros Estados Unidos e ter aula com algumas das
lendas do burlesco, principalmente na BurlyCon, fez uma diferença enorme.
Especialmente com minha timidez “esquisita”, minhas travas estranhas. Conseguir
olhar a plateia nos olhos é mil vezes mais difícil e íntimo, pra mim, do que
ficar inteiramente nua em um espaço público.
Pena que encontrar aulas de dança adultas aqui
em Las Vegas seja tão mais difícil do que era em São Paulo. Há um mundo de
aulas que eu gostaria de fazer, mas que são, ou do outro lado da cidade, ou
para pessoas que começaram quando crianças. Então aqui eu me aventuro no pole
dance, tanto pelo lado fitness quanto pela alegria de rolar pelo chão (acho que
chamam o floorwork americano, meu favorito, de pole exótico por aí).
Ver a dança como uma arte marcial, meu breve
histórico com as mesmas, o desafio de permitir que o público realmente “me
veja” ao olhá-lo nos olhos, o tesão por contar uma história e criar um
personagem que é uma extensão da minha persona, a troca de energia que acontece
no palco com a plateia e essa vulnerabilidade que um trabalho autoral requer, a
alegria que é dançar (é como voar) e, talvez menos comum, minha paixão pelo
estilo de narrativa japonês e minha visão taoísta do mundo, são as coisas que,
eu acredito, permeiam o meu estilo de burlesco.
“SER PAGA
PARA TRANSAR COM UMA MULHER GOSTOSA E NERD? TOPEI NA HORA”
Na minha opinião, depois de ter lhe
assistido em tantas performances pela Xplastic, lhe considero uma das melhores
performers girl/girl do mundo! Como você começou a ser uma performer pornô e o
que te motivou a entrar nesta profissão?
Comecei a tirar fotos pro Suicide Girls na mesma
época que comecei a fazer performances burlescas, em 2006. Ficar nua não era
algo que me desafiava. Falar de pornografia e sexualidade positiva nunca me
assustou, meu estágio na faculdade foi como editora de web de uma revista
masculina e meu principal freela no mesmo período foi como colunista digital de
uma revista semanal, escrevendo sobre sexo (na cidade de São Paulo). Conheci a
XPlastic como jornalista, cobrindo o primeiro PopPorn e a oficina de pornô
“faça você mesmo”. Eles foram aliados importantes na jornada do meu coletivo
burlesco, o Burlesque Takeover, e me aproximei mais deles por causa do PopPorn.
O primeiro convite que pintou foi pra
fotografar, e depois pra gravar com a Mayanna Rodrigues, também performer
burlesca no TBT (e que anos antes eu havia entrevistado numa feira erótica).
Acho que nunca tive dúvida se eu deveria gravar com eles ou não, foi só uma
questão de quando. Bastou ter o convite para que eu começasse a gravar.
Quanto à motivação, bem, dinheiro foi obviamente
uma delas. Faculdade, morar sozinha (depois do fim daquele relacionamento
24/7), contas pra pagar. E ser paga para transar com uma mulher gostosa e nerd?
Topei na hora. O trabalho da XPlastic é um dos mais positivos, feministas e
fofos (!) que conheço dentro do pornô e se alinha com a maneira que eu vejo o
sexo.
Como foi seu primeiro filme +18?
Quais as sensações que teve em exibir sua sexualidade frente às câmeras?
Se não me engano, meu primeiro filme adulto foi
o “Jujubas e Marshmallow” com a Mayanna Rodrigues, gravado num dia que um canal
adulto estava entrevistando a Sasha Grey, em turnê pelo Brasil para divulgar o
seu livro. Gravamos, com uma equipe quase toda de mulheres, uma cena íntima e
delicada. Nossas estéticas, aparentemente opostas, se complementaram bem na
frente de uma câmera. Assim, quase um Hi Hi Puffy AmiYumi pornô.
Honestamente, eu costumo esquecer que as câmeras
estão ali até que peçam para ajustar a posição pra ter um ângulo melhor de
filmagem ou cortar porque o cartão de memória encheu. O que eu faço na frente
das câmeras é o que eu faço sem câmeras por perto. Eu sempre brinco que sou
péssima atriz, então evito atuar. E definitivamente, contracenar com alguém com
experiência e que toma as rédeas da situação, como a Mayanna, ajuda.
Acho que só me dei conta do fato de “pera, isso
é um filme adulto e eu sou uma atriz pornô” quando gravei o Insônia - Parte II
com a Patricia Kimberly. Talvez tenha sido o tamanho da equipe, em volta, mas
eu achei divertido ter quase uma dezena de pessoas no mesmo espaço que a gente,
fazendo luz, captando áudio, câmeras e uma direção com um olhar mais masculino,
diferente do que eu estava acostumada. A diversidade de experiências é algo que
curto bastante no trabalho como performer de filmes adultos.
Me conte três fantasias sexuais que
gostaria de realizar.
Não sei como, mas a principal é o
hentai de tentáculos… Muitos, muitos tentáculos e baba intergaláctica.
Outra experiência que ainda quero ter é com um homem ou uma mulher trans. E,
acho que essa é fantasia porque a realidade da coisa é tão perigosa, uma
experiência de glory hole. É algo que ao mesmo tempo é assustador e
fascinante.
Quais as maiores diferenças em se
apresentar para uma plateia gringa e uma brasileira?
Hoje, graças ao crescimento de uma
cena burlesca no Brasil, a diferença é bem menor. No começo as plateias
brasileiras não interagiam, não sabiam se tinham permissão de gritar e
assobiar, e estavam presas à 4ª parede. Dependendo de onde eu me apresento fora
do Brasil, às vezes também encontro essa plateia da 4ª parede, que acha que assistir
burlesco é como ver balé ou teatro (em que é preciso “se comportar”). Não é.
As plateias americanas têm uma história de burlesco
que as brasileiras não têm. As plateias brasileiras têm uma história de vedetes
que é única e diferente, e de um carnaval que normaliza a nudez em certas
situações. O burlesco que eu vi no Japão toma, por certo, um respeito da plateia
com o artista, uma segurança do controle de cena, e um ritmo e duração de cena
diferente do americano e do brasileiro.
Algo que sempre levei em consideração foi se a plateia
vai entender as referências culturais que uso em certas performances. Meu
trabalho, nos primeiros anos, foi voltado justamente a criar cenas
universalmente reconhecíveis, algo que não se perdesse na tradução. Nos últimos
anos tenho brincado mais com a performance art, e desafiado as plateias com
algumas das referências. É sempre divertido dançar algo como Perigosa das
Frenéticas por aqui, mesmo sabendo que a piada pronta do figurino de gatinha se
perde.
Houve algum preconceito do meio
burlesco por você ter feito pornô?
Se houve, não foi
explícito e eu não notei. E definitivamente, não foi no Brasil. Até porque
muitas das pessoas com que gravei no Brasil também fazem parte do meu meio
burlesco de alguma forma.
Eu sei que aqui nos EUA tem a questão do “Whorearchy”
em certos meios, uma hierarquia imaginária do trabalho no entretenimento adulto
que dita que ser performer de burlesco é “melhor”, de alguma forma, do que ser
stripper (não é, a gente gasta muito mais com figurino e ganha muito muito
muito menos), ou que ser atriz pornô é melhor do que ser garota de programa.
Felizmente, há um trabalho consciente em eliminar essa hierarquia besta que
cria competição e preconceito e em ter consciência, que em tempos de
SESTA/FOSTA*, estamos todxs no mesmo barco e corremos os mesmos riscos.
*SESTA/FOSTA: projeto de lei, introduzido pelo senador
americano Rob Portman e assinado pelo atual presidente americano Donald Trump
no último dia 11 de abril, que modificou um conjunto de leis de 1996 que enquadra
algumas divulgações sexuais como “tráfico de pessoas”.
Eu amo o “Cozinha Ao Ponto” e os
papos super cabeça que você levava com os participantes. Atualmente você mora
fora do país, certo? O que mais gosta da culinária gringa? Algum prato que gosta
mais de fazer?
Moro em Las Vegas e sou
apaixonada por comida asiática. Eu costumo cozinhar versões mais saudáveis de
certas coisas, como hambúrguer com alface no lugar do pão ou macarrão feito com
abobrinha (na verdade, zucchini, a nossa abobrinha brasileira é o zucchini
italiano, com uma consistência mais cremosa do que o americano), e só preparo
carnes kosher em casa. Amo fazer uma versão de ramen com caldo caseiro de ossos
e o “macarrão” de abobrinha e tigelas de salada que incorporam o melhor do que
eu chamo de “comida saudável da preguiça”, com salmão defumado ou outros peixes
simples, um monte de folhas verdes, tomate, ovos cozidos e temperos.
Tenho o péssimo hábito de passar horas olhando
receitas online e quando vou comer, opto pelo que é mais prático e fácil então
tenho que manter a geladeira abastecida com comidas saudáveis pré ou
semiprontas para não correr pro drive-thru de frango frito aqui perto. E, mesmo
amando brigadeiro (que é o que eu sempre faço pras festinhas nas casas dos
amigos aqui), os doces são minha perdição em se tratando de culinária
americana. Cookies de chocolate, brownie, sanduíches de sorvete feitos com
cookies, macarons, donuts, e por aí vai…
O que pensa para o futuro?
Eu sempre fui fascinada pelo trabalho como educadora
sexual e figura midiática da Sue Johanson. E pela Dercy Gonçalves e pela Mae
West. Imagino que no futuro vou acabar voltando às minhas raízes no jornalismo,
apelando pro conteúdo “low-brow” no melhor estilo Dercy/Mae e acabar escrevendo
ou gravando algo no gênero. O único limite que existe, em termos de idade, pro
burlesco, é o do que o corpo pode fazer fisicamente e não vejo uma data de
validade no meu trabalho. Quero voltar a criar conteúdo, mas ainda estou um
pouco perdida em relação ao “como” da coisa. Queria ter uma XPlastic por aqui
também pra me ajudar com isso.
Eu tenho o péssimo/ótimo hábito de, como dizem
por aqui, “morder mais do que consigo mastigar” e não pretendo parar.
“...LEMBRO
DE SENTAR NA BEIRADA DE CIMA DO SOFÁ E SENTIR UMA SENSAÇÃO ESTRANHAMENTE BOA
QUANDO ROÇAVA...”
Você gosta de assistir filmes
pornôs? Contracenaria em uma produção americana com alguma grande empresa XXX?
Não assisto muito pornô americano, costumo
procurar JAV como meu tipo de conteúdo favorito. Amaria contracenar com a
Marica Hase que é atriz de JAV, mas que vive em Los Angeles e também grava com
produtoras daqui. Mas ainda não descobri como ser notada pela indústria
americana. Eu e aquela minha timidez estranha…
Masturbação feminina ainda é um tabu
em nossa sociedade. Você se lembra da primeira vez que se masturbou?
Acho que comecei como muitas
meninas começam, me esfregando, montada, no travesseiro. Não lembro de um
momento específico, mas lembro de sentar na beirada de cima do sofá e sentir
uma sensação estranhamente boa quando roçava e de perceber que era algo que não
deveria ser feito na frente dos outros. Também lembro que um pouco antes de
parar de brincar de Barbie a minha boneca foi usada de uma forma ou outra para
começar a explorar o meu corpo com a ajuda de um espelho.
Sobre sua sexualidade na vida
pessoal: você se relaciona apenas com mulheres como nos filmes?
Não, sou bi/pan. Me sinto
atraída por todo tipo de pessoas, e costumo dizer que gosto de cérebros. Me
sinto atraída pela androginia e por conversas inteligentes, mas por algum
motivo a maior parte dos meus relacionamentos foi com homens. Talvez por causa
daquela minha timidez estranha e o fato de que eu não sei falar com as mulheres
pelas quais me sinto atraída. Meu parceiro atual também é bi e o que chamam, no
universo gay, de um urso, e aceita e apoia as minhas aventuras com outras
mulheres. Agora se eu apenas conseguisse falar com elas…
Mais alguma coisa que gostaria de
comentar nesta entrevista?
Acho que já falei pra
caramba. Acho que a única coisa que gostaria de acrescentar, serve tanto pro
pornô quanto pro burlesco… Se você acha que não há o suficiente daquilo que
gosta, que ama, no mercado, vá e faça. Seja o pornô/burlesco que você quer ver
no mundo porque se você não fizer, quem vai? Representatividade importa (e
informa).
© Caroline Borgia 10/04/2018

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